Um Cruzeiro, uma Herdeira Morta e Poirot sem Férias
Kenneth Branagh volta ao bigode de Hercule Poirot e, desta vez, leva o detetive belga ao Egito dos anos 1930. A ideia era dar a ele umas férias merecidas. O que acontece é o de sempre: um assassinato acontece dentro de um barco a vapor no Nilo, todos têm motivos para matar e ninguém tem álibi sólido. Morte no Nilo é o tipo de filme que você assiste num sábado chuvoso sem grandes expectativas e sai razoavelmente satisfeito, mas não surpreso.
Morte no Nilo é Bom? O Veredito Direto
É entretenimento sólido que tropeça no próprio peso. O filme acerta na ambientação, na fotografia e em alguns momentos do elenco. Erra na duração do prólogo, que consome quase 40 minutos antes de o cruzeiro zarpar, e no roteiro que, em vez de conduzir o espectador pelos indícios, prefere ter o próprio Poirot explicando o que acabou de acontecer. Quem já conhece o livro de 1937 vai adivinhar a reviravolta central cedo demais. Quem não conhece vai ter uma experiência mais fluida, mas ainda assim perceberá que o filme valoriza o visual acima do mistério.
A comparação com Assassinato no Expresso do Oriente (2017), o primeiro filme da série de Branagh, é inevitável. E nela, Morte no Nilo sai no menor. O antecessor tinha um dilema moral mais afiado e um terceiro ato que entregava peso emocional. Aqui, a virada principal é tecnicamente correta, mas chega sem o impacto que deveria ter.
O Que Funciona de Verdade
A fotografia de Haris Zambarloukos é o principal argumento do filme. As pirâmides de Gizé, o deserto egípcio e os interiores do barco são fotografados com uma paleta dourada e saturada que remete às produções da época em que a história se passa. Branagh claramente quis fazer um filme que parecesse ter sido tirado de uma revista de moda de 1930, e nesse aspecto ele acerta.
O elenco de apoio tem momentos. Emma Mackey, como Jacqueline de Bellefort, a ex-noiva do marido da vítima, carrega o filme emocionalmente nos minutos em que aparece. A decisão de Branagh de incluir uma sequência de abertura na Primeira Guerra Mundial para dar a Poirot uma origem para o bigode é estranha na leitura do roteiro, mas funciona visualmente como estabelecimento de caráter. Também merece menção a cena do camarote onde Branagh usa o reflexo no vidro como metáfora direta para o que o roteiro está construindo — é o tipo de decisão de direção que existe nesse filme mas não em quantidade suficiente.
Gal Gadot como Linnet Ridgeway, a herdeira assassinada, não tem muito espaço para além de parecer rica e ameaçada. Ela cumpre esse papel com presença, mas o personagem fica subdesenvolvido para o peso dramático que precisa carregar.






